O que os comunistas igualitários não querem que você saiba.
Acerca sobre o comunismo sovietico e facismo-nazismo:
KOLAKOWSKI, LESZEK. Modernity on Endless Trial. Chicago: University of Chicago Press, 1990, p. 189
“O diabo […] inventou estados ideológicos, ou seja, estados cuja legitimidade é fundada no fato de seus proprietários serem proprietários da verdade. Se te opões a tal estado, ou seja, a seu sistema, és um inimigo da verdade.”
SNYDER, TIMOTHY. Bloodlands, p. 155
“Entre 1941 e 1945 a União soviética foi responsável por todos assassinatos políticos.”
A percepção sobre o mundo soviético — e sobre a natureza de seus fenômenos — é, sem sombra de dúvida, uma das maiores lacunas no imaginário brasileiro. Quando se questiona o que de fato ocorreu na Rússia durante os eventos que polarizaram o século XX, somos lançados em um verdadeiro vazio histórico. Pouco se sabe com clareza.
Assim como o nazismo, a experiência soviética também se estruturou sobre a ideia de purificação social: uma tentativa de “limpar” o mundo de elementos considerados corruptos, decadentes ou inimigos da ordem histórica. Se, na Alemanha, isso se manifestou como supremacia racial e perseguição aos judeus, na União Soviética assumiu a forma de eliminação sistemática de classes e opositores ideológicos.
Embora frequentemente apresentados como inimigos irreconciliáveis, fascismo-nazismo e comunismo compartilham elementos estruturais profundos. Ambos operaram sob um radicalismo político que buscava a sacralização do movimento e a eliminação de parcelas da sociedade. Esse fenômeno só pode ser compreendido à luz da tentativa de estabelecer um “denominador comum” — uma régua de igualdade absoluta ou de exclusão total.
Para Adolf Hitler, os judeus foram retirados da condição humana; para o comunismo soviético, especialmente sob Joseph Stalin, todos aqueles que resistiam ao marxismo-leninismo tornavam-se inimigos a serem eliminados.
Já destacamos, em outro momento, como ideologias igualitaristas podem gerar desdobramentos como nacionalismo e etnicismo. No bolchevismo, esse impulso revela até onde pode chegar o ressentimento social — seja como inveja, seja como ódio — em relação a grupos considerados privilegiados, como a burguesia russa. As consequências foram devastadoras.
Os mesmos que levantaram a bandeira da igualdade radical foram também os responsáveis por um processo sistemático de desumanização. No bolchevismo, consolidou-se a ideia de que não havia mais possibilidade de coexistência entre proletariado e burguesia. Trata-se de uma lógica antiga, com raízes hierocráticas e quase religiosas — algo que o mundo moderno prometia superar, mas que, paradoxalmente, ressurgiu com força ainda maior.
O terror russo
O regime soviético, desde seus primórdios sob Vladimir Lenin, lançou mão da violência política como instrumento estruturante. Durante o chamado Terror Vermelho (1918–1922), estima-se que entre 100 mil e 300 mil pessoas tenham sido executadas pela polícia política (Cheka), além de centenas de milhares enviadas a campos de trabalho forçado.
Com a ascensão de Joseph Stalin, essa violência atingiu níveis ainda mais amplos e sistemáticos:
- Durante a coletivização forçada da agricultura (1929–1933), milhões de camponeses foram expropriados, deportados ou mortos.
- A fome artificial na Ucrânia, conhecida como Holodomor, resultou em cerca de 3 a 5 milhões de mortos.
- O sistema de campos de trabalho forçado, o Gulag, aprisionou aproximadamente 18 milhões de pessoas, com 1,5 a 2 milhões de mortes decorrentes de condições desumanas.
- Durante o Grande Expurgo (1936–1938), cerca de 700 mil pessoas foram executadas, além de milhões perseguidas, presas ou exiladas.
No total, estimativas históricas apontam que o regime soviético, sob Lenin e Stalin, foi responsável por entre 15 e 20 milhões de mortes, considerando execuções, fomes induzidas, deportações e trabalhos forçados.
Stalin buscava mobilizar a consciência proletária como força motriz da história. Contudo, esse projeto estava inseparavelmente ligado a duas pretensões destrutivas: a utopia ideológica absoluta e a tentativa de “imanentizar” a realidade — ou seja, de realizar na história um paraíso que, por definição, não pertence a ela. O resultado foi uma violência de proporções gigantescas.
A lógica revolucionária estabelecia uma distinção radical: aqueles alinhados ao projeto utópico eram dignos de direitos e privilégios; aqueles que resistiam tornavam-se obstáculos a serem eliminados. A violência, portanto, não era um desvio — mas uma consequência direta do próprio sistema.
Na experiência soviética, é possível destacar alguns pontos fundamentais:
- Diferentemente do modelo nazista, as vítimas eram frequentemente acusadas de crimes específicos — ainda que fabricados ou arbitrários;
- A lógica de exclusão social operava de forma semelhante a um “racismo de classe”, no qual determinados grupos eram considerados intrinsecamente inimigos;
- A homogeneização social era um objetivo estrutural do sistema, que buscava eliminar qualquer diferença relevante;
- As vítimas do comunismo foram perseguidas não apenas por sua classe social, mas, sobretudo, por sua posição ideológica.
A experiência soviética revela, portanto, um paradoxo central: em nome da igualdade absoluta, instaurou-se um dos sistemas mais desiguais e violentos da história. Ao tentar nivelar a humanidade por meio de uma régua ideológica, o regime acabou por justificar a eliminação de milhões.
E é justamente nesse ponto que reside a sua maior lição histórica: quando uma ideologia reivindica para si o monopólio da verdade, todo aquele que discorda deixa de ser apenas um adversário — e passa a ser tratado como um inimigo da própria realidade.
