Professor Samuel Pacheco

Como o ceticismo histórico deturpou o sentido dos Evangelhos?

A busca por entender Jesus fora do contexto evangélico levou a uma cisão profunda que esvaziou tanto sua historicidade quanto seu caráter espiritual, resultando em um Cristo fragmentado. Essa fragmentação não é apenas uma questão acadêmica, mas o reflexo de uma crise maior: a luta para reconciliar a figura de Jesus da história com o Cristo da fé.

Hermann Samuel Reimarus, um dos pioneiros da crítica histórica, apresentou um Jesus radicalmente diferente daquele pregado nos púlpitos. Para ele, Jesus era um profeta judeu que nunca ressuscitou dos mortos; ao contrário, seu corpo teria sido furtado, e os Evangelhos não passariam de uma construção dos apóstolos para perpetuar uma fraude. Reimarus despojou Jesus de sua divindade, reduzindo-o a um líder revolucionário cujos seguidores criaram a narrativa da ressurreição. Nesse processo, o caráter espiritual de Jesus foi esvaziado, e o Cristo da fé relegado ao reino da fábula.

Por outro lado, David Friedrich Strauss, teólogo protestante, inverteu o problema ao esvaziar o caráter histórico de Jesus em favor de uma interpretação estritamente querigmática. Para Strauss, o valor de Jesus não estava nos eventos históricos de sua vida, mas na proclamação da fé que emergiu a partir deles. O Cristo da fé, para ele, era a única realidade significativa, e a história de Jesus foi reinterpretada como um mito simbólico, despojado de qualquer vínculo concreto com a realidade histórica.

Protestantes, de um lado, e positivistas, de outro, criaram um abismo em relação à tradição apostólica. Jesus ou é despido de seu caráter histórico, ou de sua divindade.

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