Estamos sendo alimentados por notícias, a todo tempo, sobre o povo judeu e o Islã. De toda parte, vemos posições partidárias calorosas — e tudo isso tem sua origem em uma perspectiva fundamental:
O que temos nós a ver com isso? O Ocidente deve algo aos judeus ou aos muçulmanos?
O que a nossa cultura tem a ver com essas tradições? Ainda podemos colocá-las na balança? Quem nos menospreza mais?
Essas e outras questões não devem ser unicamente minhas.
A questão invisível do Ocidente
Dessas perguntas surge mais um dos elementos que o brasileiro “respira” sem refletir:
a natureza daquilo que concebemos como mundo ocidental — e, mais ainda, se devemos algo ao Oriente, mais especificamente ao judaísmo e ao islamismo.
Em um primeiro momento, é preciso ressaltar a impossibilidade de uma significação direta e natural dessas religiões dentro do Ocidente, já que este frequentemente se apresenta em antagonismo a elas.
Mas deixemos isso de lado por ora.
O que importa aqui é a particularização dos fenômenos: aquilo que, em certos momentos, podemos ter recebido — ou até mesmo dependido.
O que é o Ocidente?
A primeira coisa a ser ressaltada — seja você um reacionário à cultura europeia ou não — é que aquilo que concebemos como Ocidente nada mais é do que uma extensão do que já existia na Europa.
Pensar radicalmente essa questão é, portanto, definir o que é a Europa.
A Europa não é constitutivamente definida por sua geografia, mas em relação ao restante do mundo — pelo que ela não é.
Ela se encontra atravessada por cisões internas, organizadas em dois grandes eixos:
- Norte–Sul
- Leste–Oeste
No cruzamento dessas cisões, encontramos um centro pelo qual toda a humanidade culturalmente passou e que, a partir dele, irradiou influência:
o Mar Mediterrâneo.
Para os romanos, sua conquista significava influência global — o mare nostrum. Para o Islã, o mesmo espaço era o bahr al-Rum.
As heranças do Ocidente
A Europa, desde Roma, é frequentemente lembrada como herdeira de três elementos:
- a fé judaico-cristã
- a filosofia grega
- o direito romano
Ainda assim, não podemos encerrar a questão aqui.
Essa fórmula, quando tomada de forma simplista, sugere uma continuidade passiva — como se o Ocidente fosse apenas um recipiente dessas tradições.
Mas não é disso que se trata.
A influência judaica e islâmica
O judaísmo e o islamismo possuem uma influência particular e direta, mas não constituem uma entidade completa e representativa dentro da formação do Ocidente — com exceção pontual do Império Khazar.
Sua influência se deu, sobretudo, no plano literário:
- por meio das traduções de textos hebraicos e orientais
- pela preservação e transmissão de obras filosóficas perdidas no Ocidente
Nesse ponto, destacam-se:
- as obras de Averróis
- a transmissão de Aristóteles
- as traduções do Antigo Testamento
A visão islâmica
Um aspecto relevante é a forma como o islamismo se posiciona no mundo:
- em relação pacífica com o mundo – dar al-salam
- em guerra contra o paganismo– dar al-harb
- em trevas em relação a outros monoteísmos – dar al-sulh
A romanidade como princípio transformador
Outro ponto essencial: nossas “raízes” não chegam até nós por mera recepção passiva.
Não recebemos esse rio cultural de forma pura. Recebemo-lo através da romanidade.
Roma não é apenas intermediária — sua latinidade cria algo novo.
- o judaísmo já não é apenas judaísmo: torna-se cristianismo
- a filosofia grega ganha novos horizontes
- o direito alcança novas estaturas, especialmente com o direito natural
“Somente podemos ser judeus ou gregos porque somos, antes, romanos.”
Transmissão histórica
Essa transmissão ocorre, em parte, pelo deslocamento dos judeus sefarditas da Península Ibérica para o norte da Europa, no século XIII — especialmente da Andaluzia à Provença.
As traduções de textos bíblicos em língua vernacular tinham, muitas vezes, judeus como agentes centrais, especialmente em centros como Toledo e Nápoles, entre os séculos XII e XIII.
Graças a isso, houve uma importante alavancagem acadêmica na Europa.
Desenvolvimento, não fundação
Portanto, a contribuição judaica não se dá na formação originária da Europa, mas em sua constituição tardia.
Ela participa do desenvolvimento — sobretudo na esfera intelectual.
Podemos ver essa influência em:
- São Jerônimo
- Orígenes
- Hugo de São Vítor
- Lutero (ao preferir traduções de David Kimhi)
- e também na influência de Maimônides sobre Tomás de Aquino
A singularidade do cristianismo
Apesar da importância intelectual e do Antigo Testamento, o cristianismo é algo novo a partir de Roma.
Ele reconhece sua raiz, sabe que foi enxertado na história judaica (cf. Romanos 11), mas vive uma experiência nova.
Como afirma Irineu de Lyon: Cristo não trouxe algo novo, mas tudo como novo.
A questão dos textos bíblicos
A ideia de que o catolicismo anexou livros não reconhecidos pelos judeus é equivocada.
Esses textos já estavam presentes em tradições judaicas:
- babilônica
- alexandrina
- palestina
A tensão entre os dois testamentos foi tão intensa que Marcião optou por rejeitar o Antigo Testamento.
Diferenças teológicas fundamentais
No islamismo, a relação com o Antigo Testamento e com o judaísmo não envolve uma economia da salvação.
Entre os sunitas, especialmente, não há uma história da salvação como no cristianismo.
Os profetas transmitem mensagens — e essa mensagem encontra sua plenitude em Maomé.
O islamismo também se posiciona, em muitos momentos, frente ao judaísmo e ao cristianismo como uma tentativa de apontar uma suposta corrupção interna dessas tradições.
Autores como:
- Ibn Qutayba
- Al-Ghazali
expressam, em diferentes níveis, essa postura.
A diferença final
Ao contrário do cristianismo — que reconhece os judeus como guardiões da revelação até o advento de Cristo — o islamismo não reconhece nem judeus nem cristãos como plenamente legítimos dentro de sua estrutura teológica.
Conclusão
Portanto, o cristianismo é algo ímpar.
O Ocidente é algo ímpar.
Não se trata de uma herança recebida intacta — mas de uma tradição recriada.
Sua produção histórica não é uma simples continuidade do judaísmo, nem muito menos do islamismo.
O fato de essas tradições terem tido importância intelectual em momentos específicos não significa que constituam o fundamento da civilização ocidental.
Ao contrário, muitas leituras contemporâneas acabam projetando categorias modernas — como culpa coletiva ou acusações genéricas de imperialismo — sem o devido reconhecimento histórico e sem proporcionalidade.
Também é preciso reconhecer que, dentro dessas relações, há tensões reais, diferenças profundas e, por vezes, posturas historicamente conflitantes de ambos os lados.
Isso exige análise, não simplificação.
O Ocidente não pode ser compreendido por redução — mas apenas pela consciência de sua própria formação.
