Professor Samuel Pacheco

O Ocidente deve algo aos judeus ou aos muçulmanos?

Estamos sendo alimentados por notícias, a todo tempo, sobre o povo judeu e o Islã. De toda parte, vemos posições partidárias calorosas — e tudo isso tem sua origem em uma perspectiva fundamental:

O que temos nós a ver com isso? O Ocidente deve algo aos judeus ou aos muçulmanos?

O que a nossa cultura tem a ver com essas tradições? Ainda podemos colocá-las na balança? Quem nos menospreza mais?

Essas e outras questões não devem ser unicamente minhas.


A questão invisível do Ocidente

Dessas perguntas surge mais um dos elementos que o brasileiro “respira” sem refletir:

a natureza daquilo que concebemos como mundo ocidental — e, mais ainda, se devemos algo ao Oriente, mais especificamente ao judaísmo e ao islamismo.

Em um primeiro momento, é preciso ressaltar a impossibilidade de uma significação direta e natural dessas religiões dentro do Ocidente, já que este frequentemente se apresenta em antagonismo a elas.

Mas deixemos isso de lado por ora.

O que importa aqui é a particularização dos fenômenos: aquilo que, em certos momentos, podemos ter recebido — ou até mesmo dependido.


O que é o Ocidente?

A primeira coisa a ser ressaltada — seja você um reacionário à cultura europeia ou não — é que aquilo que concebemos como Ocidente nada mais é do que uma extensão do que já existia na Europa.

Pensar radicalmente essa questão é, portanto, definir o que é a Europa.

A Europa não é constitutivamente definida por sua geografia, mas em relação ao restante do mundo — pelo que ela não é.

Ela se encontra atravessada por cisões internas, organizadas em dois grandes eixos:

  • Norte–Sul
  • Leste–Oeste

No cruzamento dessas cisões, encontramos um centro pelo qual toda a humanidade culturalmente passou e que, a partir dele, irradiou influência:

o Mar Mediterrâneo.

Para os romanos, sua conquista significava influência global — o mare nostrum. Para o Islã, o mesmo espaço era o bahr al-Rum.


As heranças do Ocidente

A Europa, desde Roma, é frequentemente lembrada como herdeira de três elementos:

  • a fé judaico-cristã
  • a filosofia grega
  • o direito romano

Ainda assim, não podemos encerrar a questão aqui.

Essa fórmula, quando tomada de forma simplista, sugere uma continuidade passiva — como se o Ocidente fosse apenas um recipiente dessas tradições.

Mas não é disso que se trata.


A influência judaica e islâmica

O judaísmo e o islamismo possuem uma influência particular e direta, mas não constituem uma entidade completa e representativa dentro da formação do Ocidente — com exceção pontual do Império Khazar.

Sua influência se deu, sobretudo, no plano literário:

  • por meio das traduções de textos hebraicos e orientais
  • pela preservação e transmissão de obras filosóficas perdidas no Ocidente

Nesse ponto, destacam-se:

  • as obras de Averróis
  • a transmissão de Aristóteles
  • as traduções do Antigo Testamento

A visão islâmica

Um aspecto relevante é a forma como o islamismo se posiciona no mundo:

  • em relação pacífica com o mundo – dar al-salam
  • em guerra contra o paganismodar al-harb
  • em trevas em relação a outros monoteísmos – dar al-sulh

A romanidade como princípio transformador

Outro ponto essencial: nossas “raízes” não chegam até nós por mera recepção passiva.

Não recebemos esse rio cultural de forma pura. Recebemo-lo através da romanidade.

Roma não é apenas intermediária — sua latinidade cria algo novo.

  • o judaísmo já não é apenas judaísmo: torna-se cristianismo
  • a filosofia grega ganha novos horizontes
  • o direito alcança novas estaturas, especialmente com o direito natural

“Somente podemos ser judeus ou gregos porque somos, antes, romanos.”


Transmissão histórica

Essa transmissão ocorre, em parte, pelo deslocamento dos judeus sefarditas da Península Ibérica para o norte da Europa, no século XIII — especialmente da Andaluzia à Provença.

As traduções de textos bíblicos em língua vernacular tinham, muitas vezes, judeus como agentes centrais, especialmente em centros como Toledo e Nápoles, entre os séculos XII e XIII.

Graças a isso, houve uma importante alavancagem acadêmica na Europa.


Desenvolvimento, não fundação

Portanto, a contribuição judaica não se dá na formação originária da Europa, mas em sua constituição tardia.

Ela participa do desenvolvimento — sobretudo na esfera intelectual.

Podemos ver essa influência em:

  • São Jerônimo
  • Orígenes
  • Hugo de São Vítor
  • Lutero (ao preferir traduções de David Kimhi)
  • e também na influência de Maimônides sobre Tomás de Aquino

A singularidade do cristianismo

Apesar da importância intelectual e do Antigo Testamento, o cristianismo é algo novo a partir de Roma.

Ele reconhece sua raiz, sabe que foi enxertado na história judaica (cf. Romanos 11), mas vive uma experiência nova.

Como afirma Irineu de Lyon: Cristo não trouxe algo novo, mas tudo como novo.


A questão dos textos bíblicos

A ideia de que o catolicismo anexou livros não reconhecidos pelos judeus é equivocada.

Esses textos já estavam presentes em tradições judaicas:

  • babilônica
  • alexandrina
  • palestina

A tensão entre os dois testamentos foi tão intensa que Marcião optou por rejeitar o Antigo Testamento.


Diferenças teológicas fundamentais

No islamismo, a relação com o Antigo Testamento e com o judaísmo não envolve uma economia da salvação.

Entre os sunitas, especialmente, não há uma história da salvação como no cristianismo.

Os profetas transmitem mensagens — e essa mensagem encontra sua plenitude em Maomé.

O islamismo também se posiciona, em muitos momentos, frente ao judaísmo e ao cristianismo como uma tentativa de apontar uma suposta corrupção interna dessas tradições.

Autores como:

  • Ibn Qutayba
  • Al-Ghazali

expressam, em diferentes níveis, essa postura.


A diferença final

Ao contrário do cristianismo — que reconhece os judeus como guardiões da revelação até o advento de Cristo — o islamismo não reconhece nem judeus nem cristãos como plenamente legítimos dentro de sua estrutura teológica.


Conclusão

Portanto, o cristianismo é algo ímpar.
O Ocidente é algo ímpar.

Não se trata de uma herança recebida intacta — mas de uma tradição recriada.

Sua produção histórica não é uma simples continuidade do judaísmo, nem muito menos do islamismo.

O fato de essas tradições terem tido importância intelectual em momentos específicos não significa que constituam o fundamento da civilização ocidental.

Ao contrário, muitas leituras contemporâneas acabam projetando categorias modernas — como culpa coletiva ou acusações genéricas de imperialismo — sem o devido reconhecimento histórico e sem proporcionalidade.

Também é preciso reconhecer que, dentro dessas relações, há tensões reais, diferenças profundas e, por vezes, posturas historicamente conflitantes de ambos os lados.

Isso exige análise, não simplificação.

O Ocidente não pode ser compreendido por redução — mas apenas pela consciência de sua própria formação.

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